Uma prática educacional baseada em evidências: Resposta à Intervenção

Quando apresentamos os novos critérios do DSM-V para o diagnóstico dos Transtornos de Aprendizagem, uma das mudanças citadas foi a obrigatoriedade de verificar a persistência de um prejuízo acadêmico por meio de procedimentos de resposta à intervenção. Uma vez que a entidade que elabora do DSM-V é a Associação Americana de Psiquiatria (APA), a adoção deste critério não implicou na implantação de programas específicos de Resposta à Intervenção (Response to Intervention – RTI), já que esta é uma prática comum e frequente nos Estados Unidos.

Porém, quantos de nós, brasileiros, sabem o que é RTI? Do que se trata? Quais são as finalidades e a relevância da RTI? Como viabilizar a sua aplicação? Vamos explorar este assunto no texto de hoje.

Na década de 1980, nos USA, psicólogos educacionais e educadores sentiram a necessidade de modificar as práticas de trabalho em sala de aula junto às crianças que apresentavam dificuldades e atrasos para aprender. Havia uma insatisfação com o modelo tradicional de encaminhamento de alunos para avaliações psicológica e multidisciplinares, uma vez que trata-se de um processo lento, caro e que respondia de maneira superficial às necessidades e angústias dos professores. Os relatórios dos especialistas, com linguagem técnica e possível diagnóstico, não forneciam informações muito precisas sobre como realizar as acomodações escolares necessárias dos alunos com necessidades educacionais especiais. Depois de muitas discussões, pesquisas e propostas, com a publicação do Individual with Disabilities Educational Act (IDEA, 2004), todos os estados americanos adotam a RTI como política pública educacional.

Neste contexto, a RTI é definida como um “sistema integrado de detecção precoce em progressivos níveis de apoio aos alunos”. É realizada por meio do fornecimento de intervenções cada vez mais intensivas e baseadas no progresso da resposta de cada aluno.

Os objetivos da RTI são:

– Garantir a aprendizagem de todas as crianças com práticas baseadas em evidências científicas, eliminando déficits curriculares e metodologias de instrução de baixa qualidade.

– Fornecer critérios claros de identificação de crianças com dificuldades/transtornos de aprendizagem e demais necessidades educacionais especiais.

Os pressupostos da RTI são:

– Oferecer ensino eficaz ao maior número de pessoas.

– Prevenir as dificuldades de aprendizagem por meio da garantia de adequação do currículo e instruções fornecidas.

– Fornecer atendimento diferenciado de alunos com dificuldades de aprendizagem.

– Perspectiva ecológica, considerando a contribuição das variáveis entre as crianças da sala de aula, além das variáveis instrucionais.

– Estabelecer de programas governamentais de intervenção nas escolas.

A prevenção das dificuldades de aprendizagem é extremamente relevante para garantir maiores chances de sucesso acadêmico e aceleramento na aprendizagem, uma vez que as propriedades de neuroplasticidade que são maiores na 1ª infância. Por outro lado, a perspectiva tradicional de avaliação e tratamento das DA pressupõem o atendimento tardio (wait-to-fail) e por isso pode causar maiores prejuízos acadêmicos e consequências emocionais negativas para a criança e sua família. Para que os objetivos da RTI sejam alcançado, é necessário realizar uma formação dos professores que contemple instruções de alta qualidade, estratégias curriculares baseadas em evidências científicas e práticas de avaliação constante dos alunos para monitoramento dos progressos.

Os benefícios da RTI são:

– Instrução de alta qualidade e ensino com fundamentação científica e eficácia comprovada

– Não requer mão de obra especializada externa à escola.

– Não depende de materiais ou outros recursos que a escola não disponha

– Medida eficaz para a aprendizagem da maioria dos alunos

Como operacionalizar a RTI? As figuras abaixo ilustram as diferentes camadas (também denominadas de fases) e o fluxo de trabalho que orienta a realização de diferentes níveis de intervenção para cada aluno:

RTI camadasRTI respostas

Na fase 1, deve haver a capacitação de professores com reestruturação didática das aulas voltadas à habilidades-alvo do programa (alfabetização, aritmética, auto-regulação e funções executivas, entre outros). É importante que nesse período sejam esclarecidos e discutidos conceitos e práticas pedagógicas fundamentadas cientificamente na perspectiva das neurociências. Também são planejadas e elaboradas as atividades práticas envolvendo as sub-habilidades do programa (ex: apresentação multissensorial de letras, consciência fonológica, expansão de vocabulário). A aplicação da fase 1 é sempre feita em sala de aula e envolve instruções explícitas com a participação de todos os alunos, com duração média de 3 dias/semana e período de 20 minutos/dia. Estima-se que 80% dos alunos de uma turma aprendam de maneira plena neste nível.

Na camada 2, a intervenção é remediativa e ocorre em pequenos grupos (3-5 alunos), geralmente em período contra-turno às aulas. Estima-se que 15% dos alunos de uma turma possa necessitar desta etapa de intervenção. É recomendada frequência de 3 dias/semana durante 40 minutos e no período de 9 a 12 semanas. Nesta etapa, as mesmas habilidades ensinadas na fase 1 e que estão ainda em atraso nestes alunos são estimuladas de maneira explícita e sistemática com maior intensidade. É sempre importante considerar que o ensino deve também ser feito com aumento gradual de complexidade. Sugere-se que o monitoramento seja feito semanalmente e mensalmente

Por fim, na camada 3, estão os alunos que não responderam de forma adequada às intervenções da fase 2 e, por isso, possuem déficits de aprendizagem que não podem ser explicados por falta de instrução adequada ou lentidão para aprender. Estes alunos são encaminhados para avaliação multidisciplinar e acompanhamento individualizado, ao mesmo tempo em que são elegíveis para serviços de educação especial. Estima-se que 5% dos alunos de uma turma estejam neste panorama.

Podemos então considerar e concluir que a RTI é um modelo interessante para proporcionar a oportunidade de estudantes com dificuldades serem identificados e cuidadosamente monitorados. Trata-se de um método que melhora a aprendizagem no ensino geral com intervenções baseadas em evidência científica e reduz o número de encaminhamentos desnecessários para avaliações diagnósticas. Alguns grupos de pesquisa têm realizado trabalhos de aplicação e avaliação da eficácia da RTI, que pode muito acrescentar para a melhoria da qualidade da educação e da identificação de crianças com dificuldades e transtornos da aprendizagem no Brasil.

Fontes:

– Feifer, S.G.; Toffalo, D.A.D. (2007). Integrating RTI with Cognitive Neuropsychology: A Scientific Approach to Reading. School Neuropsych Press, Incorporated.

– Almeida, R.P. (2012). Prevenção e Remediação das Dificuldades de Aprendizagem: adaptação do modelo de Resposta à Intervenção em uma amostra brasileira. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da Universidade Federal de São Paulo. Guarulhos.

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